Infância não tem cura, sabemos. Quando ela é vivida em um paraíso tropical, entra na pele e vive ao longo de nossos caminhos, pouco importa quais sejam eles. Conheci Eduardo Gasparian na infância e atravessamos juntos a adolescência em casas em que os jardins e a floresta da Tijuca se misturavam num continuum verde e úmido. Vizinhos, conheço essa paixão pelo mistério com que a Floresta invadiu sua alma infantil e que ele se recusa a abandonar, recriando na literatura esse encantamento que o fez feliz e persiste como cenário exuberante de seus escritos. Reconheço e revivo em suas palavras esses passarinhos, todos, que voltejam em todas as árvores cujo nome ele sabe, cada uma, menino andarilho da mata, deslumbrado pela força da natureza, seus ruídos noturnos, povoando sonhos e pesadelos. Neste livro Eduardo presta tributo a um tempo que não passou, os anos dourados da vida na natureza de que hoje tanto se fala, como um conceito, enquanto ele fala com amor, com um sentimento de pertencimento justamente reivindicado, o saber da vida vivida, das escutas atentas, dos caminhos desconhecidos desbravados, metáfora do que pode ser um mapa para sua vida inteira. Pouco importa a casa desabitada, seus mortos e a idade que avança, nada, nada se perdeu. Tudo vive e se renova como a floresta. Ali, diz ele, fiz dois filhos, como quem semeia vida com raízes nessa terra que ele continua, em seu imaginário, a habitar. Leitor, você vai encontrar nas páginas deste livro a emoção e a poesia, que revestem os traços de uma saudade de si mesmo que nutre qualquer boa literatura.