Dentro da modernização capitalista, esse território continental chamado Brasil deteve uma posição singular: entre o arcaico e o moderno, entre o sagrado e o profano, entre a inclusão e a exclusão. Essa posição alimentou devaneios que marcaram grande parte das intervenções intelectuais e artísticas do século XX. A disputa pelo imaginário de nação, porém, nunca recuou e, já nos anos da ditadura empresarial-militar, a ideia de uma nação brasileira, que se realizaria a seu modo e a partir de suas especificidades, ruiu solenemente. O sonho transformou-se em pesadelo. No livro que o leitor agora tem em mãos, esse sonho tornado pesadelo é lido pelo avesso. Há algo nele para além de uma retomada da crítica caseira que grassa desde a fundação da República; algo que mostra que a (de)formação daquilo chamado nação é mais espontânea do que somos capazes de assumir. Modos imaginários de instituição coletiva, dependentes do modo de produção e reprodução social, que fazem-nos enxergar que a própria experiência intelectual e artística é marcada por esses limites. Em Eis aí, o povo brasileiro, André Castro desnuda o quanto os sonhos de nação são produzidos sob os limites impostos pela própria situação. As imaginações coletivas não seguem em linha reta um projeto; pelo contrário, são devedoras de processos que se organizam à sua revelia. Em um país cujo acerto de contas com seu passado colonial ainda está por ser feito, qualquer projeto específico orientado pelos grandes exemplares do espírito da nação só faria coro com a exclusão da maioria explorada. E, no curso do século XX, parece hoje clara uma lacuna entre um projeto de nação assentado na brilhante formação cultural brasileira e o povo realmente existente, marcado pela exclusão racial e pela violência do braço armado do Estado. Pois é esse povo esbulhado que será capturado e mais: agenciado pela experiência do que Castro chama de evangelicalismo radical. Eis aí, o povo brasileiro demonstra, de maneira vertiginosa, como Marca: Não Informado