A religião é um sentimento enigmático, uma mistura de terror e esperança, uma simbolização sombria ou alegre de um poder que desejamos, mas não possuímos, um desconhecido que domina, o equívoco, o medo, a maldade. No Rio, assim como em outras cidades destes tempos de irreverência, cada rua é um templo e cada pessoa tem uma crença diferente. Ao ler os grandes diários, imaginamos estar em um país predominantemente católico, onde alguns matemáticos são positivistas. No entanto, a cidade está repleta de religiões. É só parar em qualquer esquina e interrogar. A diversidade dos cultos será surpreendente. São swedenborgianos, pagãos literários, fisiólatras, defensores de dogmas exóticos, reformadores da Vida, reveladores do Futuro, amantes do Diabo, bebedores de sangue, descendentes da rainha de Sabá, judeus, cismáticos, espíritas, babalaôs de Lagos, mulheres que respeitam o oceano, todos os cultos, todas as crenças, todas as forças do Medo. [] Eles circulam por aí, papas, profetas, crentes e reveladores, cada um orgulhoso do seu culto, que para eles é a Verdade. Converse com eles amigavelmente, sem a intenção de agredi-los, e eles se confessarão porque só uma coisa é impossível para o homem: enganar seu semelhante, na fé. Foi isso que fiz na reportagem que a Gazeta de Notícias emprestou uma tão ampla hospitalidade e um tão grande burburinho; foi este o meu esforço: desvendar um pouco do mistério das crenças nesta cidade.
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